segunda-feira, 30 de março de 2015

Mensagem do Papa Francisco ao Sr. Bispo de Ávila.


Ao Monsenhor Jesús García Burillo
Bispo de Ávila
Vaticano, 28 de março de 2015
    Querido irmão:
Hoje meu coração está em Ávila, onde há 500 anos nasceu Teresa de Jesus. Mas não posso esquecer os vários outros lugares que preservam sua memória, pelos quais passou com suas sandálias gastas percorrendo estradas poeirentas: Medina del Campo, Malagón, Valladolid, Duruelo, Toledo, Pastrana, Salamanca, Segóvia, Beas de Segura, Sevilha, Caravaca de la Cruz, Villanueva de la Jara, Palência, Sória, Granada, Burgos e Alba de Tormes. Além disso, a pegada desta ilustre Reformadora continua viva nas centenas de conventos carmelitas espalhados por todo o mundo. Seus filhos e filhas no Carmelo mantêm acesa a luz renovadora que a Santa acendeu para o bem de toda a Igreja.

A esta insigne “mestra de espirituais”, coube a meu predecessor, o beato Paulo VI, o inédito gesto de conferir o título de Doutora da Igreja. A primeira mulher Doutora da Igreja! Ela nos mostra como viver o segredo de Deus, que adentrou “por meio da experiência, vivida na santidade de uma vida consagrada à contemplação e, ao mesmo tempo, dedicada à ação, experiência sofrida e também gozada, na efusão de extraordinários carismas espirituais” (Homilia na Declaração do Doutorado de Santa Teresa, 27 setembro de 1970: AAS [1970] 592).
Nada disto perdeu sua vigência. Contemplação e ação seguem sendo seu legado para os cristãos do século XXI. Por isso, como gostaria que pudéssemos falar com ela, tê-la a frente e perguntar-lhe várias coisas. Séculos depois, seu testemunho e suas palavras nos encoraja a entrarmos em nosso castelo interior e a sair fora, a “guardarem-se as costas uns aos outros… para irem adiante” (Vida 7, 22). Sim, entrar em Deus e sair com seu amor para servir os irmãos. Para isto “convida o Senhor a todos” (Caminho 19,15), seja qual for nossa condição e lugar que ocupemos na Igreja (cf. C 5,5).
Como ser contemplativos na ação? Que conselhos nos daria você, Teresa, hoje?
No momento presente, seus primeiros interlocutores seriam os religiosos e as religiosas, aos quais a Santa animaria a se comprometerem sem rodeios: “Não, minhas irmãs; não é tempo de tratar com Deus negócios de pouca importância” (C 1,5), como disse às suas monjas. Ela hoje nos tiraria da autorreferencialidade e nos impulsionaria a sermos consagrados “em saída”, com um modo de vida austero, sem “franzimentos” nem amarguras: “Assim não vos acanheis porque, se a alma se começa a encolher, é coisa muito má para tudo quanto é bem” (C 41,5). Neste Ano da Vida Consagrada, nos ensina a ir ao essencial, a não deixar a Cristo as migalhas de nosso tempo ou de nossa alma, mas a levar-lhe tudo nesse amistoso colóquio com o Senhor, “estando muitas vezes tratando a sós com quem sabemos que nos ama” (V 8,5).
E sobre os sacerdotes? Santa Teresa diria abertamente: não os esqueçam em sua oração. Sabemos bem que foram para ela apoio, luz e guia. Consciente como era da importância da pregação para a fé das pessoas mais simples, valorizava os presbíteros e, “se via algum pregar com espírito e bem, cobrava-lhe particular afeição” (V 8,12). Mas, acima de tudo, a Santa orava por eles e pedia a suas monjas que estivessem “todas ocupadas em oração pelos defensores da Igreja e pregadores e letrados que a defendem” (C 1,2). Que bonito seria se a imitássemos rezando infatigavelmente pelos ministros do Evangelho, para que não se apague neles o entusiasmo nem o fogo do amor divino e se entreguem por inteiro a Cristo e a sua Igreja, de modo que sejam para os demais bússola, bálsamo, estímulo e consolo, como o foram para ela. Que a prece e a proximidade dos Carmelos acompanhem sempre os sacerdotes no exercício do ministério pastoral.
E aos leigos? E às famílias, que neste ano estão tão presentes no coração da Igreja? Teresa foi filha de pais piedosos e honrados. A eles dedica apenas algumas palavras elogiosas no início do Livro da Vida: “Ter pais virtuosos e tementes a Deus - se eu não fosse tão ruim - me bastaria, com o que o Senhor me favorecia, para ser boa” (V 1,1). Na juventude, quando ainda era “inimiguíssima de ser monja” (V 2,8), foi educada para seguir o caminho do matrimônio, como as moças de sua idade. Foram muitos e bons os leigos com que a Santa tratou e que auxiliaram suas fundações: Francisco de Salcedo, o “cavaleiro santo”, sua amiga Guiomar de Ulloa ou Antônio Gaytán, a quem escreve louvando seu estado e pedindo que se alegre por ele (cf. Carta 386 2). Necessitamos hoje homens e mulheres como eles, que tenham amor pela Igreja, que colaborem com ela em seu apostolado, que não sejam somente destinatários do Evangelho, mas discípulos e missionários da Palavra divina. Há ambientes em que somente eles podem levar a mensagem da salvação, como fermento de uma sociedade mais justa e solidária. Santa Teresa continua convidando os cristãos de hoje a se somarem à causa do Reino de Deus e a formarem lares em que Cristo seja a rocha na qual se apóiem e a meta que coroe seus anseios.
E aos jovens? Mulher inquieta, viveu sua juventude com a alegria própria desta etapa da vida. Nunca perdeu esse espírito jovial que ficou refletido em tantas máximas que retratam suas qualidades e seu espírito empreendedor. Estava convencida de que há de se “ter uma santa ousadia, pois Deus ajuda aos fortes” (C 16,12). Essa confiança em Deus a empurrava sempre para frente, sem poupar sacrifícios nem pensar em si mesma, apenas amando o próximo: “São necessários amigos fortes de Deus para sustentar os fracos” (V 15,5). Assim demonstrou que medo e juventude não se coadunam. Que o exemplo da Santa infunda coragem às novas gerações, para que não lhes tolha “a alma e o ânimo” (C 41,8). Especialmente quando descobrem que vale a pena seguir Cristo por toda a vida, como fizeram aquelas primeiras monjas carmelitas descalças que, em meio de não poucas contrariedades, abriram as portas do primeiro “palomarcico”, em 24 de agosto de 1562. Pela mão de Teresa, os jovens terão valor para fugir da mediocridade e tibieza e hospedar em sua alma grandes desejos, nobres aspirações dignas das melhores causas. Parece-me ouvi-la agora lhes advertindo com seu gracejo que se não olham para o alto serão como “sapos”, que caminham devagar e rasteiramente, e se contentariam em “apenas caçar lagartixas”, dando importância a minúcias no lugar das coisas que realmente contam (cf. V 13,3).
E, de modo especial, rogo a Santa Teresa que nos conceda a devoção e o fervor que ela tinha a são José. Muito bem faria aos que passam pela prova da dor, enfermidade, solidão, àqueles que se sentem agoniados ou entristecidos recorrer a este insigne Patriarca com o amor e a confiança com que o fazia a Santa.  Confesso, querido irmão, que frequentemente falo a são José de minhas preocupações e problemas e, como ela, “não me recordo até agora de lhe ter suplicado coisa que tenha deixado de fazer… A outros santos parece ter dado o Senhor graça para socorrerem numa necessidade; deste glorioso Santo tenho experiência que socorre em todas. O Senhor nos quer dar a entender que, assim como lhe foi sujeito na terra - pois como tinha nome de pai, embora sendo aio, O podia mandar -, assim no Céu faz quanto Lhe pede” (V 6,6). “Glorioso patriarca São José, cujo poder sabe tornar possíveis as coisas impossíveis… Mostrai-me que vossa bondade é tão grande como o vosso poder”, diz uma antiga oração inspirada na experiência da Santa.

Dom Jesús García, bispo de Ávila. 
Querido irmão, peço-lhe, por favor, que reze e faça rezar por mim e meu serviço o santo Povo fiel de Deus. De minha parte, encomendo todos os que celebram este V Centenário à intercessão de Santa Teresa, para que alcancem do céu tudo o que necessitem para serem de Jesus, como ela, e com a experiência de seu amor, possam construir uma sociedade melhor, na qual ninguém fique excluído e se promova a cultura do encontro, do diálogo, da reconciliação e a paz.
Que Jesus o abençoe e a Santíssima Virgem o proteja.

Fraternalmente
Franciscus 

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