sábado, 28 de março de 2015

V CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE SANTA TERESA DE JESUS (1515-2015)

 

A Igreja e as diferentes Ordens e Congregações de espiritualidade carmelita e teresiana celebram de 15 de Outubro de 2014 até 15 de Outubro de 2015 o V Centenário do Nascimento de Santa Teresa de Jesus. Apresentamos, em traços muito breves, o «bilhete de identidade» desta Santa Carmelita.

Teresa de Ahumada e Cepeda nasceu em Ávila, Espanha, a 28 de Março de 1515. Era a filha mais nova de 9 irmãos e 3 irmãs. Foram seus pais Alonso de Cepeda, descendente de judeus conversos, e Beatriz de Ahumada, de família nobre, ambos «pais virtuosos e tementes a Deus» (Vida 1,1), que a educaram na piedade e nos afazeres da casa. Aos 14 anos, Teresa perde a sua mãe. A experiência prematura de orfandade levou-a até aos pés da Virgem Maria, e pede-lhe que seja sua Mãe (Vida 1,7).

Aos 16 anos, após um período de vaidade e instabilidade, próprios da fase juvenil, é internada por seu pai durante um ano e meio no convento das Irmãs Agostinhas de Nossa Senhora das Graças, na cidade de Ávila. A amizade com uma santa religiosa infundiu-lhe o desejo de abraçar a Vida Consagrada. Aos 20 anos, contra a vontade de seu pai, ingressa no Carmelo da Encarnação. Fez a sua profissão a 3 de Novembro de 1537.

Pouco tempo depois, devido a uma doença misteriosa, vê-se obrigada a abandonar o Convento. Neste período de repouso, em casa de uns familiares, entra em contacto com os livros espirituais da sua época. Deixa-se cativar pelo Terceiro Abecedário de Francisco de Osuna que a inicia na prática da oração mental (Vida 4,6). Durante o Verão de 1539, a doença agrava-se e, durante três dias, fica como morta. Só a tenacidade de seu pai impede que a enterrem (Vida 5,9). Recuperou mas esta crise deixou marcas. Regressou, meia paralisada, ao seu Convento de Ávila (Vida 6,1-2). Atribuiu o seu completo restabelecimento a uma intervenção especial de São José (Vida 6,6-8), de quem se tornou muito devota. No entanto, a falta de saúde marcará toda a sua vida.

Reformadora do Carmelo

Deus, querendo unir Teresa mais a Si como sua esposa, purificou-a durante 18 anos com toda a espécie de provas: doenças, securas, dúvidas de fé... Um dia, quando decorria o ano de 1554, com 39 anos, diante de uma imagem de Cristo muito chagado e atado à coluna, o coração grande e terno de Teresa perturbou-se e, desfeita em lágrimas, entregou-se verdadeira e incondicionalmente à vontade de Deus. Comprometeu-se a fazer sempre o mais perfeito, rompendo com todos os laços que a prendiam às criaturas. A partir deste momento, como que morre Teresa de Cepeda e nasce Teresa de Jesus; é «outra vida» a que agora inicia. Ao ler, por esta altura, as Confissões de Santo Agostinho sente-se confirmada na mudança de rumo (Vida 9,8-9). Como fruto de uma intensa evolução espiritual, Teresa, com um punhado de amigas íntimas, decide-se a abraçar uma vida carmelita mais perfeita (Vida 32,9-10), voltando à observância da Regra Primitiva da Ordem. Funda, a 24 de Agosto de 1562, o Convento de S. José, em Ávila, enfrentando muitas oposições, chegando mesmo a pensar que tudo estava perdido (Vida 36). Mas depois de meses de luta, Teresa prossegue com a reforma da sua Ordem.

Poucos anos depois, o Senhor revela-lhe outra missão: fundar mais conventos segundo um novo estilo de vida: um pequeno grupo de Irmãs, não mais que 21, que recordasse o grupo dos apóstolos, onde a relação com Jesus pela oração fosse um exercício contínuo, onde se cultivasse a amizade entre as Irmãs e que todas colocassem as grandes preocupações da Igreja e do Mundo nas suas preces e orações. Mas Teresa ainda deseja ir mais longe e estende a Reforma das Irmãs também aos Frades, tal como veio a acontecer, depois de conhecer S. João da Cruz, em 1567, em Medina del Campo, cativando-o para a sua obra. O primeiro Convento de Frades Descalços é fundado em Duruelo, a 28 de Novembro de 1568, marcado por uma vida orante, fraterna e apostólica.

Amiga de Cristo, mulher de oração e escritora

A relação mais viva com Cristo deu-se através da leitura e meditação do Evangelho e das Vidas de Cristo. O Evangelho era o seu livro preferido. Teresa, depois de 1554, centrou-se sempre mais em Cristo, cultivando as virtudes humanas e cristãs, tais como a verdade, a humildade, o amor, a afabilidade, a determinação, os grandes desejos, como condição fundamental para crescer na oração e contemplação. À medida que o tempo passa, Teresa sente-se mais submergida em Cristo, ao ponto de exclamar como São Paulo: «Já não sou eu que vivo, mas sois Vós, Criador meu, que viveis em mim» (Vida 6,9).

Professou sempre uma terna devoção a Jesus Menino. A Paixão e Morte do Senhor foram sempre a sua meditação favorita. Teresa contemplava todo o mistério de Cristo à luz da Ressurreição, sobre a qual tem uma rica e abundante doutrina. Juntamente com o seu vivo amor a Jesus, a Santíssima Virgem e São José foram os modelos e intercessores mais marcantes na sua vida.

A oração, concebida «como trato de amizade com Quem sabemos que nos ama» (Vida 8,5), ocupa um lugar central na sua experiência espiritual e na sua doutrina. Teresa legou à Igreja, com os seus escritos, um método completo de oração mental e vocal, estudando todas as etapas que deve percorrer a pessoa para chegar à contemplação, isto é, aos últimos graus da oração, à união de amor com Deus, que ela também chama de matrimónio espiritual.

Teresa de Ávila escreveu muito, não por vontade própria mas por ordem dos seus confessores e superiores. Os seus escritos têm como tema central a sua experiência de Deus. Deixou-nos uma ampla doutrina e conselhos para a vida espiritual. As principais obras, carregadas de humanismo e vivacidade, são: Livro da Vida, Caminho de Perfeição, Castelo Interior ou As Moradas, Fundações, Cartas, Poesias e outros escritos menores.

Morreu a 4 de Outubro de 1582, num dos seus carmelos, em Alba de Tormes, a caminho de Ávila, deixando fundados, à sua morte, 17 carmelos por toda a Espanha. Contava a idade de 67 anos, 6 meses e 7 dias. Teresa de Jesus amou tanto a Igreja, ao ponto de se dispor a morrer por ela. As suas últimas palavras, no seu leito de morte, foram exactamente: «Morro filha da Igreja» e «Chegou a hora, Esposo meu, de nos encontrarmos». Paulo VI, a 27 de Setembro de 1970, proclamou-a Doutora da Igreja Universal.

«Santa Teresa de Jesus é uma verdadeira mestra de vida cristã para os fiéis de todos os tempos. Na nossa sociedade, muitas vezes desprovida de valores espirituais, Santa Teresa ensina-nos a ser incansáveis testemunhas de Deus, da sua presença e da sua acção; ensina-nos a sentir realmente essa sede de Deus que existe no nosso coração, esse desejo de ver Deus, de buscá-lo, de ter uma conversa com Ele e de ser seus amigos. Esta é a amizade necessária para todos e que devemos buscar, dia após dia, novamente» (Bento XVI).

Possam estas breves notas sobre a vida de Santa Teresa de Jesus estimular a descoberta do legado desta mulher extraordinária, «Mestra dos Espirituais», cuja principal herança são os seus escritos e a grande família que gerou na Igreja.

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